Pet (amigo) invisível
Atualizado: 27 de dez. de 2021
O número de maus tratos e abandono animal aumenta durante a pandemia.
Carolina Duque e Pedro Camargo
Se por um lado o isolamento social impulsionou a adoção de pequenos amigos para acabar com a solidão durante a pandemia, por outro acabou levando ainda mais desses às ruas por abandono. Os motivos são variados. Por questões de morte dos tutores – em que a família não tem como cuidar do animal –, estresse dentro da casa por passarem mais tempo juntos, medo de contrair coronavírus e pela questão econômica; um dos cortes de gastos, seja por conta do desemprego ou pela mudança para uma casa menor, incluíram os bichinhos nesse pacote, e, consequentemente, sem conseguir um espaço para eles em abrigos superlotados, foram abandonados nas ruas.

De acordo com o balanço divulgado pela Polícia Militar Ambiental, houve um aumento de 162,5% de infratores por maus-tratos de animais no período pandêmico de 2020, se comparado ao ano anterior. Foram 461 vítimas em 2019 contra 642 no ano passado. E ainda assim, não existem dados oficiais sobre o abandono no Brasil. Mas, as situações relatadas por ONGs e abrigos apontam que há muito mais cães e gatos pelas ruas, como é o caso da professora e cuidadora de animais há mais de 20 anos, Irene Gonçalves, de 55 anos.
“Agora tiveram pessoas que buscaram adoção durante a pandemia, mas foi muito pouco se comparado ao tanto de abandono! Muitas pessoas que morreram, muitos idosos, deixaram seus animais. Inclusive eu tenho uma situação em que resgatei um cachorro que está aqui no abrigo em que o tutor morreu de covid, a filha que morava distante veio entregar a casa que era de aluguel e abandonou os três cães na rua. É realmente muito triste, a gente pega cada situação que você não tem noção” lamenta.
Marcia Toscano da Silva, educadora que contribui com a causa animal por meio de resgates em que ela intermedia adoções e até mesmo assume tutoria de alguns, relata que sempre anda com ração, sachê, e uma garrafa de água no porta-malas do carro para dar a algum animal “sempre que posso, dou um pouco de ração para moradores de rua alimentarem seus animais, e atualmente, ajudo ONGS com a contribuição de rações, mantinhas, caminhas e auxílio tutoras legais comprando algo que elas vendam para arrecadar verba” relata.
“Como já trabalhei em um bairro nobre de Barueri, já me deparei com muitos donos de animais que saíam para viagens e não queriam ‘gastar’ dinheiro com eles contratando alguém para cuidar ou deixar em locais próprios para animais, então eles abandonavam seus cachorros pelas praças rotatórias de veículos, e os animais ficavam ali no meio não conseguindo fugir” completa. Marcia reforça a importância de contribuir com ONGs de causa animal, ajudar na alimentação dos que estão na rua e na denúncia em casos de abandono e maus tratos.
O Brasil já enfrenta uma longa caminhada com o problema do abandono de animais e isso não se resume apenas ao atual período pandêmico, já que a OMS estima que são cerca de 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães abandonados aqui no Brasil. Segundo dados da pesquisa de 2015 do IBOPE e o Instituto Waltham, pelo menos seis a cada 10 brasileiros abandonam seus animais quando mudam de casa.
Para enfrentar esse problema, o artigo 32 da Lei 9.605/98 determina prisão de 3 meses a 1 ano e multa a quem praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos ou realizar experiência dolorosa ou cruel em animal vivo e a punição é aumentada de um sexto a um terço se ocorrer a morte do animal. Mas, já na Lei Estadual 16.308/16 a guarda do animal pode ser proibida para aqueles que maltratarem animais domésticos.
Mas ainda assim a prática desses crimes não é inibida, e além dos problemas físicos os animais também podem desenvolver diversos transtornos psicológicos que afetam na rotina como o estresse, agressividade, depressão animal e afins. ‘’Melman é uma cadela resgatada das ruas que sofreu abuso sexual e hoje possui alguns traumas ‘’no dia da adoção, nós demos banho, demos comida, água e vermífugo. Durante o banho percebemos que seu órgão reprodutor estava sangrando, e muito machucado. Até hoje ela tem traumas, morre de medo de tempestades porque passava frio na rua e sempre ficava molhada, tem traumas em relação ao abuso e sobre a falta de comida’’, conta a dona, Clara Toscano.
Se de um lado ocorre os maus tratos animais não param, do outro ONGS também vem precisando de ajuda, como é o caso do Instituto Inês Caruso em Boituva ‘’qualquer tipo de doação é bem-vinda, está difícil receber ajuda. As pessoas que sabem o que faço e sabem onde moro, jogam filhotes no meu quintal, e eu já cuido de muitos.’’, diz Inês.
Qualquer ato de solidariedade é extremamente importante e necessário em tempos de pandemia como este e casos como esse reforçam a necessidade de conscientizar. A seguir uma lista de ONGs animais que aceitam doações, para ajudar basta acessar o link e entrar em contato.
- Anjos e protetores (https://www.anjoseprotetores.com.br/)
- AATAN (https://www.aatansorocaba.com.br/)
- FAS (http://www.fundacao.org.br/)
- Ong amor e gratidão (https://www.facebook.com/ongamoregratidao/)



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