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Marcas de um Hijab

24 de out. de 2021
6 min de leitura

Atualizado: 4 de fev. de 2022


Uma viagem pela realidade que vivem os muçulmanos no Brasil. As dificuldades das mulheres muçulmanas e a vivência de imigrantes árabes no País.

Esta matéria foi produzida em grupo: Carolina Duque, Pedro Camargo, Maria Oliveira, Thaís Verderamis, João Vitor e Ana Laura Ferreira.




Apesar de ter o corpo coberto por roupas longas e o cabelo por lenços, todo dia, de uma cor diferente, ela não esconde os traços de feminilidade que lhe são permitidos: olhos bem marcados em maquiagem e unhas pintadas de esmalte claro. Sheila Pietrobom tem 36 anos, é brasileira e muçulmana convertida. Ela não recusa seu nome de nascença mas prefere o novo de origem árabe que lhe foi dado pelo Sheik de sua linhagem: Samar. Que carrega o significado de ser protegida por Deus. Com os olhos brilhando, ela explica: “Quando eu recebi o nome eu gostei. É uma nova fase da minha vida, então eu acolhi o nome e eu acho lindo.”


Ter aceitado a cultura de uma nova religião refletiu em novos hábitos na sua vida e de sua família. “No começo, quando eu era mais nova e ia sair com minha família, minha mãe implicava com o hijab. E eu preferia não ir, mas também não tirava o hijab, não rebatia ela, mas a deixava sentir um pouquinho a minha falta. No começo foi muito difícil, mas tudo foi um degrau”, diz.


"Machismo tem em todo lugar, existem pessoas machistas, mas isso não necessariamente deve estar atrelado a cultura ou a religião.''

O Brasil é um país considerado machista e, segundo uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres e o portal Papo de homem, 95% das mulheres e 81% dos homens entrevistados concordam com esta afirmação. Por isso é comum também enxergarem na cultura islâmica a opressão e a submissão da mulher. Contudo, Samar deixa claro que o fato de usarem o Hijab “é um sinal de liberdade” que se opõe ao machismo: “Machismo tem em todo lugar, existem pessoas machistas, mas isso não necessariamente deve estar atrelado a cultura ou a religião. Nas regras do islã, quanto a vestimenta, os homens também têm obrigações, como a de não mostrar as canelas ou ficar sem camisa, por exemplo”, diz ela.


“Em relação ao hijab, eu não uso, somente dentro da mesquita e para fazer minhas orações em casa. Mas já cheguei a usar em alguma ocasião, lá no começo quando eu me converti e realmente as pessoas ficam olhando, mas nunca ninguém chegou e falou diretamente para mim”, diz Cláudia Ribeiro de Paiva, 51, brasileira e convertida ao Islã há três anos. Claudia diz que aprendeu que a questão do uso do véu é opcional, portanto cada mulher deve decidir se quer ou não usá-lo, já que no livro sagrado dos muçulmanos (Alcorão), não há uma definição sobre isso. Nos dias de hoje, muitas mulheres abdicaram do uso, devido a ameaças que sofreram por serem muçulmanas e associadas ao terrorismo. “O preconceito existe sim, principalmente na maneira como a mulher se veste”, enfatiza.


Muitos acreditam que as mulheres são submissas e oprimidas na religião, mas Cláudia explica que a submissão está atrelada a obediência a sua fé e não aos homens. “ser mulher no islã é lutar pelos seus direitos, é nunca baixar a cabeça e nunca desistir”.


Além dos ataques e preconceitos que já sofreu, Samar percebe a dificuldade das pessoas em conectar sua religião à profissão. Ela é enfermeira do resgate do estado de São Paulo. “As pessoas acham que as muçulmanas não trabalham, mas é lógico que a gente trabalha e estuda. Eu trabalho no resgate e tenho diversos casos de pessoas que não quiseram ser atendidas por mim quando viam o lenço, que preferiram assinar um termo de responsabilidade a serem atendidas por mim. O hijab no Brasil é um problema, as empresas não contratam, colegas até me aconselharam a refazer entrevistas sem o hijab para ter a chance de conseguir a vaga.” desabafa.


Enquanto mulher brasileira e muçulmana há 10 anos, ela reconhece o olhar dos curiosos que a olham estranho na rua, e apesar de nunca ter sofrido violência física explica que o preconceito é algo recorrente, principalmente pelo julgamento na hora de procurar um emprego “As pessoas tem medo, enfermeiros queriam me tirar da ambulância porque tinham medo que eu causasse algum atentado terrorista. Mas atentado terrorista acontece todo dia no Brasil. É só ligar a tv que irá aparecer as diversas brigas entre gangues que fazem vítimas, por exemplo”.





Cultura e Costumes

Com a testa no grosso carpete vermelho que cobre o chão da mesquita, direcionado para Meca (cidade sagrada para os muçulmanos), todos escutam o Sheik Mohamad Al Bukai, 41, líder da maior mesquita do país, fazer o chamado na língua árabe que pouco a pouco vai tornando o lugar, antes vazio, em um espaço lotado, com respeito e humildade, os homens ficam separados das mulheres. Dentro da mesquita, ele lidera as rezas (hakats ou prostrações) cinco vezes ao dia, e nas sextas-feiras – dia que é considerado sagrado – realiza um sermão maior acompanhado por regras e costumes, como as restrições alimentares. Os homens o acompanham, com os pés descalços, lado a lado, em cima de uma linha branca em fila indiana, ali são todos iguais.


Al Bukai compara a religião com uma prescrição médica, “Existem algumas restrições, que Deus diz que não é bom para nós. Está no alcorão que o muçulmano não pode consumir bebida alcoólica, nem comer carne de porco, porque este animal sofre muito para morrer e tem sentimentos muito parecidos com os do ser humano”, explica.















Terrorismo e Estereótipo


Muitas pessoas, vinculam o Islã com o terrorismo, esse é o principal motivo de preconceito com pessoas desta religião. Porém, diferente do que se pensa, o terrorismo parte de um grupo extremista que se utiliza da religião Islã para promover suas ações. Os ataques, como o 11 de Setembro nos Estados Unidos, ou o atentado em Paris, no ano de 2015, são exemplos que não condizem com o alcorão, segundo o Sheik. “O radical existe em qualquer religião. Não existe religião radical ou extremista, existem pessoas radicais e extremistas”, ele ainda continua, “o maior pecado no Islã é tirar a vida de alguém ou a própria vida”.


O Brasil é o terceiro país da América do Sul que mais atrai imigrantes no mundo e, de acordo uma matéria publicada em 2016 pelo jornal O Globo, o número de denúncias por xenofobia cresceu em 633%. Contudo isso não parece atingir diretamente os imigrantes islãs. “Eu não penso em deixar o Brasil”, diz o Sheik com um sorriso no rosto. Ele está no Brasil há 12 anos e demonstra muito afeto, segundo ele as diferenças culturais o faz se sentir acolhido, “quando saio na rua com as minhas vestes de líder Islâmico, as pessoas observam e até perguntam sobre minha nacionalidade”, enfatiza. O mesmo acontece com Mohamad Sabouni, 30, engenheiro de computação, design gráfico e professor de inglês, e que está há seis anos em São Paulo, “Eu gosto do Brasil. É tranquilo, principalmente em São Paulo, porque estamos falando de uma cidade que tem uma diversidade muito grande, as pessoas respeitam muito e aqui tem todas as religiões”, expressou.


Porém, mesmo sendo uma cidade receptiva, não deixa de ter preconceitos. “A gente está em São Paulo, uma cidade grande, pode ser que no interior as pessoas não tenham a cabeça tão aberta. Não posso negar que não existe o preconceito, eu sofri preconceito. Eu estava procurando um trabalho de professor de inglês, entrei em uma escola bastante famosa que estava precisando. Fiz um exame de conhecimento e passei, a coordenadora ligou para mim, disse que eu havia passado e que só faltavam papeladas administrativas para que eu começasse a trabalhar e também uma entrevista com a diretora da escola. Fui a entrevista e em um dado momento ela me perguntou, seu nome é árabe e você é muçulmano, a minha dúvida é a seguinte, eu posso saber se quando chegar o horário da sua oração, você vai para a sua aula ou para a oração? No começo achei uma pergunta ridícula, mas a diretora disse que entraria em contato e eu perdi a vaga.” Conta Sabouni.


Sem nenhum traço além do sotaque e nome para evidenciar sua nacionalidade ou religião, Sabouni, conta como os países árabes fecharam as portas aos sírios devido a guerra e como o Brasil abriu os braços para recebê-los.


“Eu saí da Síria, fui para o Líbano e do Líbano eu vim para cá. Eu terminei a faculdade e enquanto você está estudando a faculdade te entregam uma carta que te libera de fazer o serviço militar. Quando você termina a faculdade, não recebe mais. Então o governo te dá um tempo para se aprofundar no estudo, depois disso vai até a sua casa te buscar para participar da guerra, ou matar ou morrer. Eu não queria nem um nem outro, então preferi sair do país.” desabafa. Brincando com os dedos desconfortavelmente e com os olhos pouco baixos relembra a família. “Eu estou aqui sozinho, não posso voltar, porque como eu saí do país e não fiz o serviço militar meu nome ficou na lista preta. Assim que eu voltar eles vão me levar para a guerra”.





Mesmo que com todas as dificuldades apresentadas, todos eles, tanto o Sheik como o Mohamed que vieram de fora, quanto Samar e Cláudia, brasileiras convertidas, permanecem acreditando no respeito como base para que a interação entre as culturas exista. “Conhecer novas linhas de fé, só assim todos saberão respeitar uns aos outros. Isso é dever de um muçulmano, por exemplo, logo é meu dever também, não só pela religião, mas por ser humana”, finaliza Samar.



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